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Inovação e reverência

O que a tecnologia e a estética fazem com o nosso culto

William Vanderlei de Oliveira

Entre em um templo evangélico hoje e repare na luz. Em muitos deles, as lâmpadas da plateia foram reduzidas, as do palco ganharam cor, e há fumaça no ar. O ambiente foi desenhado para produzir uma sensação. Fica uma pergunta que vale fazer com calma: a quem esse ambiente serve?

Sou arquiteto antes de ser seminarista, e esse olhar me acompanha quando entro numa igreja. A estética de um templo nunca é neutra. Ela ensina. Ela diz onde está o centro, onde devem repousar os olhos e o que importa naquele lugar.

Quando a luz foge da Bíblia aberta e corre para o palco, ela já pregou um sermão antes do pregador abrir a boca.

O lugar não santifica o culto

A Confissão de Fé de Westminster é direta sobre isso. No capítulo 21, ela ensina que nenhum ato de culto fica mais aceitável por causa do lugar onde é oferecido. Deus deve ser adorado em todo lugar, em espírito e em verdade: na família, diariamente, em secreto, e de modo mais solene nas assembleias públicas.

A mesma frase, porém, termina com um cuidado que costuma passar batido. As assembleias públicas não devem ser descuidadas, nem voluntariamente desprezadas nem abandonadas. A Confissão livra o templo da superstição e, no mesmo movimento, cobra zelo por ele. O lugar não torna o culto santo. O descuido com o lugar revela o que pensamos do culto.

Daí nasce a pergunta prática deste artigo: quais escolhas de arquitetura, luz e tecnologia ajudam a boa ordem do culto público?

A igreja sempre foi contemporânea

A história ajuda aqui. A igreja nunca ficou atrás na tecnologia do seu tempo. Ela atravessou o greco-romano, o gótico, o renascentista, o barroco, o neoclássico e o contemporâneo, e em cada período tomou para si o que havia de mais avançado em arquitetura, engenharia e arte.

Nem toda escolha teve a mesma motivação.

O gótico ergueu arcos ogivais e pés-direitos altíssimos. O fiel entrava e se sentia pequeno diante do divino. A intenção era teológica, e a forma comunicava.

As abóbadas resolveram um problema concreto. Repetidas do altar até o último lugar da nave, elas devolviam a voz do orador por todos os cantos do templo. Foi acústica antes do microfone, e serviu diretamente à pregação da Palavra.

O barroco romano tomou outro caminho. Os adornos banhados a ouro, erguidos diante de uma população carente, exibiam a riqueza da instituição. O sagrado se concentrou no edifício, e o foco que pertencia a Deus escorreu para as coisas da terra.

O erro que mudou de endereço

O barroco romano tem herdeiros protestantes. Igrejas de linha neopentecostal usam a própria grandiosidade para ilustrar uma promessa de prosperidade, e o fiel sem conhecimento das Escrituras se vê preso ali. O mecanismo lembra o tempo das indulgências que levou Lutero a escrever suas teses.

O caso mais visível é o templo inaugurado em São Paulo em 2014, com cem mil metros quadrados e capacidade para dez mil pessoas, erguido numa das áreas mais movimentadas e mais carentes da cidade. A obra demonstra o uso da estética como ostentação e se afasta por completo dos princípios de culto definidos em Westminster.

O que diz o nosso próprio manual

A Igreja Presbiteriana do Brasil subscreve Westminster, e o Manual Presbiteriano é específico. O artigo 5º define o templo como a Casa de Deus dedicada exclusivamente ao culto, a Casa de Oração para todas as gentes. O parágrafo único pede que o salão de cultos seja usado só para esse fim, salvo casos especiais a juízo do Conselho. O artigo 6º fecha com a diretriz estética: estilo religioso adaptado ao culto evangélico, em que predominem linhas austeras e singelas.

Austeras e singelas. A regra é simples de enunciar e exigente de aplicar.

Nenhum elemento do ambiente pode roubar a atenção que pertence a Deus.

Vale lembrar o que Jesus encontrou no templo em Mateus 21.12-13. Ele derrubou as mesas dos cambistas e disse: “A minha casa será chamada casa de oração; vós, porém, a transformais em covil de salteadores.” O lugar havia sido convertido em outra coisa, e Cristo agiu. Hoje alguns salões viraram casas de comércio. Outros viraram espaços teatrais, onde se apresenta o que o público quer ouvir, na mensagem e na estética, como um espetáculo que massageia o ego de quem assiste.

Schaeffer: arte com conteúdo

Francis Schaeffer, em A arte e a Bíblia, oferece o caminho de saída. Ele recusa a divisão entre “coisas religiosas” e cultura secular. A arte e a tecnologia podem entrar no culto, submetidas a uma cosmovisão bíblica e ao propósito de glorificar a Deus.

Schaeffer também critica a “arte romântica de Escola Dominical” que muitas igrejas evangélicas produzem. Ele chama o cristão a buscar a beleza verdadeira, aquela que as Escrituras e o evangelho de Cristo revelam, e que reflete a glória de Deus. O equilíbrio entre forma e conteúdo é o que faz o culto glorificar a Deus e edificar a igreja.

A primeira pergunta do Catecismo Maior de Westminster fixa o critério: “Qual é o fim supremo e principal do homem? O fim supremo e principal do homem é glorificar a Deus e alegrar-se nEle para sempre.” Isso vale para toda a vida do cristão e para as ações da igreja, inclusive para a planta do templo e o projeto de iluminação.

A tecnologia que serve

Algumas inovações se tornaram quase obrigatórias. Uma igreja de médio ou grande porte hoje não realiza culto sem caixas de som e microfones. Projetores, câmeras e computadores dos últimos vinte anos entraram para ficar, e a igreja os aceita com facilidade.

A pandemia mostrou o alcance disso. Templos fechados obrigaram a transmissão pela internet, e a maioria das igrejas manteve a prática depois da crise. A Grande Comissão de Mateus 28.18-20 ganhou um canal novo, e vale usá-lo.

A abóbada servia à voz do pregador. O microfone serve à voz do pregador. A luz que apaga a Bíblia e acende o palco serve a outra finalidade.

Três perguntas para quem decide

Quem está diante de uma reforma, de um orçamento de som ou de um projeto de luz pode levar três perguntas à mesa do Conselho:

A quem isto serve? A escolha ajuda o fiel a ouvir a Palavra e a cantar com a igreja, ou produz uma sensação que termina em si mesma?

Para onde vai o olhar? O ambiente conduz a atenção ao púlpito, à mesa e à Palavra aberta, ou ao palco e a quem está nele?

Isto cabe em “austeras e singelas”? A diretriz do Manual Presbiteriano é um teste honesto para projeto arquitetônico, mobiliário e cenografia.

O que fica

A igreja atravessou vinte séculos tomando emprestado o melhor da técnica de cada época, e fez bem. Inovação e reverência caminham juntas quando os princípios de culto são respeitados.

O cuidado com o templo é consequência do que cremos sobre o culto, e o culto pertence a Deus. Toda escolha de luz, som e forma responde a uma pergunta só: isto ajuda esta congregação a adorar o Senhor em espírito e em verdade?

Fontes