A história do homem é a história das suas tentativas de se justificar. Ele se torturou. Fez sacrifícios para agradar deuses falsos. Invocou anjos e santos. Comprou indulgências. Hoje faz ações humanitárias e ajuda os necessitados — e continua tentando a mesma coisa pelo mesmo motivo.
Nenhuma dessas tentativas chegou onde queria chegar. A razão é simples e dura: o homem está morto em seus delitos e pecados. Morto não melhora de posição por esforço próprio.
Paulo escreve a uma igreja que estava caindo exatamente nesse buraco. Os gálatas haviam sido tentados por legalistas a trocar a liberdade que Cristo concede e voltar à escravidão sob a Lei. É a única carta de Paulo que não traz nenhum elogio de abertura — sinal da urgência que ele sentia ao defender a doutrina que é o centro do evangelho.
Gálatas 3.10-14
Todos quantos, pois, são das obras da lei estão debaixo de maldição; porque está escrito: Maldito todo aquele que não permanece em todas as coisas escritas no Livro da lei, para praticá-las.
E é evidente que, pela lei, ninguém é justificado diante de Deus, porque o justo viverá pela fé.
Ora, a lei não procede de fé, mas: Aquele que observar os seus preceitos por eles viverá.
Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se ele próprio maldição em nosso lugar (porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado em madeiro),
para que a bênção de Abraão chegasse aos gentios, em Jesus Cristo, a fim de que recebêssemos, pela fé, o Espírito prometido.
O que a Lei faz e o que ela não pode fazer
A Lei declara a nossa culpa, conduz-nos a Cristo e orienta uma vida de obediência. O que ela não tem é poder para salvar. Ela não subjuga as tendências pecaminosas do homem nem destrói o poder do pecado nele.
Paulo diz isso em Romanos 8.3-4: aquilo que a Lei não pôde fazer, por estar enfraquecida pela carne, Deus fez, enviando o seu próprio Filho à semelhança de um pecador, como oferta pelo pecado — e assim condenou o pecado na carne, a fim de que as justas exigências da Lei fossem plenamente satisfeitas em nós.
A distinção entre Lei e graça atravessa a carta inteira:
Daí nasce a pergunta que o pecador precisa fazer: como alcançar aquela bênção suprema de ser justo aos olhos de Deus? Como adquirir aquela vida verdadeira, rica e plena, na qual o homem se assenta em paz com o seu Criador e habita em doce comunhão com Ele?
Paulo responde no versículo 11. O justo viverá pela fé.
O que é a justificação pela fé
A doutrina da justificação tem como base a obra de Jesus Cristo. A fé é o instrumento, não a causa.
A Confissão de Fé de Westminster define a justificação como um ato de livre graça de Deus, pelo qual Ele perdoa todos os nossos pecados e nos aceita como justos aos seus olhos, com base na justiça de Cristo a nós imputada e recebida pela fé. A mesma Confissão explica o terreno onde isso acontece: tornado o homem incapaz de ter vida pelo primeiro pacto, o Senhor fez um segundo, o pacto da graça, no qual oferece livremente aos pecadores a vida e a salvação por Jesus Cristo.
Não somos aceitos por Deus porque alcançamos a santidade perfeita. Continuamos pecadores, e só Deus pode nos declarar justos.
Pela fé somos justos diante de Deus mesmo continuando pecadores.
Romanos marca os dois lados dessa declaração. De um lado, a cadeia que não se rompe: “aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou” (8.30). Do outro, o tribunal que se cala: “Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica” (8.33). E a sentença: “Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (8.1).
Cristo satisfez plenamente as exigências da Lei de Deus. Ele pagou a nossa dívida e prestou a obediência que era dever nosso. A justificação não pode ser conquistada — ela é recebida como dádiva, e a própria fé também é dádiva.
O que é essa fé que somos chamados a exercer
Mas o que é, de fato, essa fé? Algo irracional? Algo subjetivo?
Ashbel Green Simonton, o missionário que fundou o presbiterianismo no Brasil, respondeu num dos sermões que pregou aqui. Para ele, a fé é o ato pelo qual o Salvador e o pecador se abraçam pela primeira vez — e, dado esse mútuo abraço, o crente dali em diante vive unido ao seu Salvador.
A fé que justifica é uma fé viva, não uma profissão de fé vazia. É uma confiança pessoal que se apega somente a Cristo para salvação. E é também uma fé penitente, que abraça Cristo como Salvador e como Senhor.
O Catecismo Maior de Westminster, na pergunta 73, explica por que a fé justifica. Não por causa das outras graças que a acompanham, nem por causa das boas obras que são fruto dela, nem como se a graça da fé fosse imputada para justificação — mas unicamente porque a fé é o instrumento pelo qual o pecador recebe e aplica a si Cristo e a sua justiça.
Spurgeon descreve a fé como formada por três coisas: conhecimento, crença e confiança. A ordem importa.
- Conhecimento. “Como crerão naquele de quem nada ouviram?” (Rm 10.14). A fé vem pela pregação (Rm 10.17): primeiro ouvir, depois conhecer aquilo em que devemos crer. “Inclinai os ouvidos e vinde a mim; ouvi, e a vossa alma viverá” (Is 55.3).
- Crença. “É necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que se torna galardoador dos que o buscam” (Hb 11.6).
- Confiança. “Em ti confiam os que conhecem o teu nome” (Sl 9.10). Deposite a sua esperança no evangelho da graça e entregue a alma ao Salvador, aquele que morreu e ressuscitou.
Lance-se sobre Jesus. Descanse nele. Assuma um compromisso com ele. Quando você tiver feito isso, terá exercido a fé salvadora.
E vale a advertência que o próprio Spurgeon faz: por meio da fé todas as coisas se tornam possíveis, mas o poder não está na fé, e sim no Deus em quem depositamos a nossa fé.
Viver pela fé
William Hendriksen, no comentário de Gálatas, observa que a tradução mais exata do versículo 11 não é “o justo pela fé”, e sim “viverá pela fé”. A diferença muda tudo: viver pela fé é o oposto de ser justificado pela Lei e de viver cumprindo-a.
Esse viver remete a usufruir da paz de Deus que excede todo o entendimento, e que guarda o coração e a mente em Cristo Jesus (Fp 4.7).
A frase não nasce em Gálatas. Ela vem de Habacuque, e vale conhecer onde.
O profeta estava perturbado porque os homens maus escapavam impunes. O Senhor parecia tolerar a exploração do necessitado, as disputas, a violência. Perplexo, Habacuque faz a Deus uma pergunta: por que o Senhor permite que os ímpios oprimam os justos em Judá?
Deus responde: os malfeitores serão punidos, os caldeus estão chegando. A resposta não satisfaz, e o profeta pergunta de novo: por que o Senhor permite que os caldeus castiguem os judeus, que pelo menos são mais justos do que aqueles estrangeiros?
Então vem a resposta definitiva. Os caldeus também serão castigados. Todos os pecadores serão castigados. Porém o justo viverá pela fé.
É dever e privilégio do justo confiar, e fazê-lo mesmo quando não consegue decifrar a justiça do procedimento do Senhor. Nessa humilde confiança e tranquila segurança, ele realmente viverá.
Tendo compreendido tão grande graça, Habacuque responde com um salmo:
Habacuque 3.17-19
Ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; o produto da oliveira minta, e os campos não produzam mantimento; as ovelhas sejam arrebatadas do aprisco, e nos currais não haja gado, todavia, eu me alegro no SENHOR, exulto no Deus da minha salvação. O SENHOR Deus é a minha fortaleza.
O que isso pede de você
Somos frágeis, terrenos e perecíveis. Mesmo que nossas obras alcançassem a meta da perfeição, não seríamos capazes de alcançar a justificação por nós mesmos diante de Deus. A garantia está firmada no pacto da graça: depositar toda a confiança em Deus, confiar nele incondicionalmente e aceitar com alegria de coração a provisão que o Pai misericordioso fez para a nossa salvação.
Seus feitos, seu dinheiro, sua bondade — tudo que você pensar ter de bom em si não te levará a Cristo. Todos pecaram e carecem da glória de Deus (Rm 3.23).
A justificação pela fé é um gracioso dom de Deus, oferecido pelo evangelho a todos os homens sem levar em conta raça, posição social, riqueza ou escolaridade. É um convite ao arrependimento e à justiça de Cristo, que garante perdão dos pecados — “se tu, Soberano Senhor, registrasses os pecados, quem escaparia? Mas contigo está o perdão” (Sl 130.3-4) — e garante vida eterna, porque Deus não tem prazer na morte do perverso, mas que ele se converta dos seus caminhos e viva (Ez 18.23).
Resta uma advertência. Que não sejamos como os crentes de Laodiceia, que tinham Bíblia, confirmação, culto, todas as práticas usuais — e não tinham a presença do Senhor da Igreja. A eles o Senhor diz que não são nem frios nem quentes, e que por serem mornos Ele está a ponto de vomitá-los da sua boca (Ap 3.15-16).
Que vivamos o evangelho em sua totalidade, aceitando a oferta irresistível da graça do nosso Deus, que se fez morto no madeiro e derramou o seu sangue naquela cruz por nós. Que não sejamos uma igreja fria ou morna, mas uma igreja viva, que se levanta nesta cidade para falar das boas novas de Cristo, e que não troca Deus pelas coisas deste mundo.