Na manhã seguinte a uma eleição, metade de um país acorda aliviada e a outra metade acorda com medo. Nos dois casos, a pergunta de fundo é a mesma: quem está no comando agora?
A Escritura responde antes de qualquer apuração. O trono que decide a história não muda de ocupante em outubro.
Quem põe os governantes
Deus constitui os governantes. Daniel declara que Ele “remove e estabelece os reis” (Dn 2.21) e que o Altíssimo “tem domínio sobre o reino dos homens e o dá a quem quer” (Dn 4.25). O Salmo 75.6-7 afirma que a exaltação vem de Deus, que abate um e exalta outro. Paulo escreve: “não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por ele instituídas” (Rm 13.1).
A Confissão de Westminster resume o ensino em uma frase: Deus, Senhor supremo e Rei de todo o mundo, para a sua própria glória e para o bem público, constituiu sobre o povo magistrados civis, a ele sujeitos.
Abraham Kuyper, que foi deputado e primeiro-ministro da Holanda, desenvolveu essa verdade na conferência Calvinismo e Política. Ele a reduz a três teses. A primeira diz que somente Deus possui direitos soberanos sobre o destino das nações. A terceira completa: o homem só exerce poder sobre outro homem por uma autoridade que desce sobre ele da majestade de Deus.
Dessa verdade nascem duas atitudes para quem vai às urnas. Dignidade, porque o voto é uma responsabilidade diante do Soberano. E humildade, porque nenhum eleito ocupa o trono definitivo: todo governante responde ao Senhor que o colocou no cargo.
Kuyper também vê na eleição popular uma graça. Segundo ele, Calvino considerava desejável a condição em que o povo escolhe seus magistrados e ensinava a receber isso com gratidão, como favor de Deus — e advertia os povos a não se privarem desse favor elegendo inimigos de Deus para a posição de mais alta honra.
Por que existe governo
O governo nasce da sabedoria de Deus para conter o mal e promover o bem. Wayne Grudem aponta três pontos do texto bíblico.
Em Gênesis 9.5-6, logo após o Dilúvio, Deus institui a punição do homicídio por mão humana — ordem que antecede Israel e vale para toda a raça humana. O livro de Juízes registra o que acontece sem governo efetivo: “naquela época, não havia rei em Israel; cada um fazia o que lhe parecia certo” (Jz 17.6). E em Romanos 13.3-4, Paulo chama a autoridade de serva de Deus “para o teu bem”: o governante serve a Deus quando castiga o mal e quando incentiva o bem, tenha ele consciência disso ou não.
Kuyper acrescenta a raiz: o pecado. Sem ele, a vida política seguiria o modelo da família. Como o pecado entrou, Deus instituiu os magistrados, e uma humanidade sem lei e sem autoridade seria, nas palavras dele, um verdadeiro inferno sobre a terra. Daí ele tira duas lições: receber com gratidão a instituição do Estado, e vigiar sempre contra o perigo escondido no poder do Estado para a liberdade pessoal.
O voto é o momento em que o povo exerce essa vigilância.
O perfil de quem deve governar
A Bíblia descreve o bom governante com nitidez. Em Êxodo 18.21, Jetro aconselha Moisés a escolher homens capazes, que temam a Deus, que sejam verdadeiros e que rejeitem o ganho desonesto. Em 2 Samuel 23.3, Davi registra a palavra de Deus: “Aquele que domina com justiça sobre os homens, que domina no temor de Deus”. O Salmo 82 ordena aos governantes: “Fazei justiça ao fraco e ao órfão, procedei retamente para com o aflito e o desamparado” (vv. 3-4).
Daniel aplica o mesmo padrão ao rei mais poderoso de seu tempo: “Abandona teus pecados, praticando a justiça, e renuncia às tuas maldades, usando de misericórdia com os pobres” (Dn 4.27).
O governo existe para o povo. Grudem mostra o contraste em Samuel. Ao deixar o cargo de juiz, Samuel pôde perguntar ao povo: “De quem tomei um boi? […] a quem tenho oprimido?” (1Sm 12.3). Ao anunciar o que fariam os reis, ele descreve um poder que toma filhos, terras e dízimos para si e para seus oficiais (1Sm 8.11-17). Usar o governo para enriquecer o líder, a família e os amigos contraria o propósito do governo, e o Antigo Testamento condena isso repetidamente.
Dessas passagens sai uma lista de perguntas que o eleitor pode fazer a qualquer candidato:
Um esclarecimento de Grudem ajuda a aplicar a lista: os cristãos devem apoiar os candidatos que melhor representem valores políticos e morais coerentes com o ensino bíblico, não obstante suas origens religiosas ou suas convicções. Ele lembra que Deus usou o faraó para elevar José, Nabucodonosor para proteger Daniel e Ciro para devolver os exilados à sua terra. O critério está no caráter e nas propostas, e a etiqueta religiosa do candidato fica em segundo plano.
O dever do eleitor crente
Votar significa participar do governo. Numa democracia, escreve Grudem, uma parte considerável do poder de governo é confiada aos cidadãos por meio das eleições — ter a possibilidade de votar significa ter uma parcela do poder de governar. Todo cidadão com idade para votar tem, portanto, responsabilidade diante de Deus de saber o que Ele espera do governo civil. Quando os cristãos se calam sobre questões morais, Grudem pergunta: de onde virão os padrões morais?
A Confissão de Westminster enumera os deveres do povo: orar pelos magistrados, honrar a pessoa deles, pagar-lhes tributos e outros impostos, obedecer às suas ordens legais e sujeitar-se à sua autoridade, e tudo isso por dever de consciência. Paulo pede oração “em favor dos reis e de todos os que se acham investidos de autoridade” (1Tm 2.2). Jeremias orienta os exilados a buscar a prosperidade da cidade e a orar por ela, porque a prosperidade da cidade é a deles (Jr 29.7).
Kuyper descreve a mudança que a fé reformada produz no cidadão: ela o ergue de uma obediência nascida do medo para uma obediência por causa da consciência.
A obediência tem um limite que a Bíblia marca com clareza. Quando o Sinédrio proibiu os apóstolos de falar em nome de Jesus, Pedro respondeu: “É mais importante obedecer a Deus que aos homens” (At 5.29). Sadraque, Mesaque e Abede-Nego recusaram adorar a estátua (Dn 3.18), e as parteiras hebreias recusaram matar os meninos (Êx 1.17).
Ideias que prometem redenção pelo Estado
Nancy Pearcey propõe um teste simples para qualquer ideologia. Toda cosmovisão, escreve ela, tem de responder aos mesmos três conjuntos de perguntas: a criação, de onde tudo veio; a queda, o que deu errado no mundo; e a redenção, como o mundo será consertado.
Aplicado ao marxismo, o teste produz três contrastes. Na criação, a matéria autocriada e autoprodutiva ocupa o lugar que a Escritura dá a Deus, que criou todas as coisas e fez o homem à Sua imagem. Na queda, a origem do mal está na propriedade privada e nas relações de exploração, enquanto a Bíblia a localiza na desobediência e no coração humano (Gn 3; Jr 17.9). Na redenção, a revolução ocupa o papel que pertence a Cristo (Ef 2.8-9).
Pearcey observa que o marxismo presume que a natureza humana pode ser transformada mudando as estruturas sociais externas, e cita o teólogo Klaus Bockmuehl, para quem o marxismo é uma visão secularizada do Reino de Deus. O argumento é teológico: quem localiza o mal somente nas estruturas e promete salvação por um sistema ocupa o lugar que a Bíblia reserva a Cristo.
Pearcey estende a análise a movimentos que chama de neomarxistas. Essa classificação é a leitura dela, e os defensores desses movimentos a contestam. O leitor encontra o tema retomado mais adiante, na seção sobre onde cristãos sérios divergem.
Kuyper chega à mesma raiz pelo caminho da política. Ele identifica duas teorias opostas à confissão reformada: a soberania popular, proclamada em Paris em 1789, e a soberania do Estado, desenvolvida pela escola alemã. Sobre a primeira, afirma que a Revolução Francesa ignora Deus e coloca na vontade humana a fonte de todo poder. Sobre a segunda, descreve o resultado: a lei deixa de refletir a vontade de Deus e vira a sempre mutável vontade do Estado que, não tendo ninguém acima dela, realmente torna-se Deus.
O eleitor pode levar três perguntas ao programa de qualquer candidato e de qualquer partido:
- Quem é o Senhor? O programa reconhece um limite acima do Estado, ou trata o poder público como a última instância?
- Onde está o mal? O programa reconhece a responsabilidade moral das pessoas, ou explica todo o sofrimento por estruturas?
- Quem salva? O programa promete paz, igualdade plena ou fim da dor por meio do poder público?
O cuidado com o pobre permanece mandamento de Deus para quem governa (Sl 82.3-4). A crítica acima mira a promessa de redenção pelo sistema. O dever de socorrer o necessitado fica de pé.
O mesmo risco do outro lado
O teste das três perguntas vale para toda a política. Um projeto de direita que prometa salvação pelo poder público entra na mesma análise que um projeto de esquerda. O Salmo 146.3-5 convida a não pôr a confiança em príncipes, filhos de homens que morrem e cujos planos perecem com eles.
Kuyper lembra que a soberania absoluta do Estado aparece em qualquer forma de governo: numa república, numa monarquia, num déspota, num tirano ou num ditador. A ideia é a mesma em todos — o poder público ocupa o lugar de Deus.
Grudem registra o limite que vale para o crente de qualquer lado: os cristãos não devem jamais depositar no governo sua esperança última de mudança do coração humano. E oferece três lembretes para quem quer ver valores bíblicos na lei.
A Lei Seca americana mostra o alcance de uma lei: ela fracassou porque exigia mais do que a própria Bíblia exige, e não encontrou eco na consciência do povo. As leis civis de Israel pertenciam a uma teocracia singular, e as nações de hoje não devem copiar as penas da aliança mosaica. E a liberdade religiosa protege todos — o governo civil não governa o que é de Deus.
A Confissão de Westminster aplica o mesmo cuidado à própria igreja: sínodos e concílios devem tratar de assuntos eclesiásticos e não se imiscuir nos negócios civis do Estado, salvo por humilde petição em casos extraordinários. É o princípio que Jesus fixou: “Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mt 22.21).
Nenhum partido é a Igreja, e nenhum candidato é o Messias. O crente vota como cidadão que serve ao Rei.
O que as leis fazem e o que só o Evangelho faz
As leis moldam uma sociedade. O governo ensina pelo exemplo de seus líderes e ensina pela lei, porque muita gente conclui que aquilo que a lei permite é moralmente correto. A Bíblia reconhece esse peso quando fala do “trono perverso, que maquina o mal em nome da lei” (Sl 94.20) e quando proclama: “Ai dos que decretam leis injustas” (Is 10.1). Provérbios 14.34 resume: “a justiça exalta as nações, mas o pecado é a vergonha dos povos”. Por isso o voto importa.
O mesmo autor fixa onde termina o poder de uma eleição: não basta vencer eleições para transformar uma nação. Grudem cita John Adams — “nossa Constituição foi criada para um povo virtuoso e justo; é inteiramente inadequada para governar qualquer outro povo” — e afirma que a necessidade mais fundamental de toda sociedade é o evangelho de Jesus Cristo, anunciado pela igreja.
A razão está na própria Bíblia. Israel recebeu leis boas, dadas pelo próprio Deus, e mesmo assim se desviou. O novo coração é promessa de Deus: “Também vos darei um coração novo e porei um espírito novo dentro de vós” (Ez 36.26). Quem vota com essa clareza aceita dois trabalhos: procurar bons governantes e boas leis, e anunciar a Cristo, que muda o coração.
As duas cidades e o Rei
Agostinho descreveu a condição do crente na política com duas cidades. “Dois amores fundaram duas cidades”, escreve ele: o amor próprio levado ao desprezo de Deus fundou a terrena; o amor a Deus levado ao desprezo de si próprio fundou a celestial. Não são dois territórios, e sim dois sistemas de lealdade. O voto do crente pertence ao primeiro amor quando nasce do amor a Deus e do amor ao próximo.
Agostinho também oferece o teste mais curto já escrito sobre governos: desterrada a justiça, que é todo reino senão grande pirataria?
O Reino que o crente serve tem outra natureza. Diante de Pilatos, Jesus declarou: “O meu reino não é deste mundo” (Jo 18.36). Esse Reino avança pela pregação do Evangelho e pela conversão, e a urna não o produz. A Escritura, ao mesmo tempo, convoca os governantes a se curvarem diante do Rei: “Agora, pois, ó reis, sede prudentes; deixai-vos advertir, juízes da terra. […] Beijai o Filho” (Sl 2.10-12). João ouve no Apocalipse que o Cordeiro é “o Senhor dos senhores e o Rei dos reis” (Ap 17.14), e Paulo anuncia que, no fim, todo joelho se dobrará diante de Jesus (Fp 2.9-11).
Seja quem for eleito, o Rei continua no trono. O Evangelho convida cada eleitor, e cada eleito, a confessar Jesus como Senhor e a crer que Deus O ressuscitou dentre os mortos (Rm 10.9).
Sete passos para o eleitor crente
- Orar. Interceda pelos que governam e pelos que disputam o cargo, como Paulo pede em 1 Timóteo 2.1-2.
- Informar-se. Leia as propostas e o histórico de cada candidato. O eleitor tem responsabilidade diante de Deus de conhecer o que Ele espera do governo.
- Examinar os frutos. O prudente vigia os seus passos (Pv 14.15), e Jesus ensina a reconhecer a árvore pelos frutos (Mt 7.16).
- Aplicar o perfil bíblico. Temor de Deus, verdade, aversão à ganância, justiça imparcial, defesa do fraco e serviço ao povo.
- Pesar os valores. Escolha quem melhor representa valores coerentes com o ensino bíblico, sem exigir que o candidato seja evangélico. Considere o que cada proposta faz pela vida, pela família, pela justiça, pelo pobre e pela liberdade de culto.
- Votar com consciência diante de Deus. O voto é uma das formas de exercer a parcela de poder que Deus confia ao cidadão.
- Aceitar o resultado e continuar. Honre a autoridade eleita, ore por ela e cobre justiça com respeito. Siga o conselho de Jeremias e trabalhe pela prosperidade da cidade (Jr 29.7).
Nenhum desses passos depende do nome de um partido. Todos dependem do Senhor que governa acima dos partidos.
Onde cristãos sérios divergem
O consenso entre evangélicos que respeitam a Escritura é amplo sobre os princípios: Deus institui o governo, o governo deve conter o mal e promover o bem, e a Igreja e o Estado têm esferas distintas. As divergências aparecem na aplicação — na teoria da guerra justa, na pena de morte, nas responsabilidades específicas do governo diante da pobreza e da riqueza. Esses debates, quando públicos e fundamentados na Bíblia, fazem bem à igreja.
Três pontos merecem honestidade do leitor.
- Cuidado com o pobre. Todos concordam que a Bíblia manda proteger o fraco (Sl 82.3-4). Cristãos discordam sobre o caminho: mais ação do Estado, ou mais igreja, sociedade civil e mercado.
- Os movimentos de identidade. A leitura de Pearcey é uma interpretação. Seus defensores afirmam que lutam contra injustiças reais e rejeitam o rótulo. O crente responde melhor ao argumento que conhece na melhor versão.
- Cristãos em todos os lados. Há cristãos sinceros em partidos diferentes. Avalie propostas e valores antes da etiqueta religiosa do candidato.
A conclusão prática é tratar o irmão que vota diferente como irmão, e debater as ideias com argumentos e com mansidão.